sexta-feira, 29 de julho de 2011

RÉQUIEM PARA ESTAMIRA


Elegia social


Nada pode já pintar
As cores do corpo em tédio
A indolência da vontade
Ou as simples palavras
Mudas que guardas
Dentro de ti.

Longe, nada pára o desejo
Ou o momento em que tudo
É belo e as pessoas se apresentam
Como aves do novo mundo
Entre plumagens de mil cores
E o cheiro a novidade.

Então porque não falas
Ou cantas os segredos
Da alma? Não há cobranças
A fazer e o preço a pagar
É tão baixo que não merece
Os juros do silêncio.

Não! Não queiras um teatro
De marionetas como palco
De vida, um presente indolente
Em que tudo se resume a
Uma plateia de aplausos
E um objecto decorativo.

Manuel F. C. Almeida



RÉQUIEM PARA ESTAMIRA

Declararam-te morta. Diabetes. Açucar no sangue!?

Oh, Estamira das nossas tardes! Eu sabia que eras mais doce que o natural! Mas sabia também que essa dulcissima alma ia te levar para um voo em rasante!

Tinha olhos espertos, fala de quem não conhecia o silêncio e a censura só chegou a ti naquele corredor insidioso de um hospital siamês como tantos que esperam caixões para colocarem seus descasos e abusos.

Lembra-te, Estamira querida, que falávamos dos laudos ubuescos?
Deram-te um desses.

Morreste fisicamente de descuido, da falta do Outro, do cheiro de novidade, como diz o poema acima, que produziste, mas te impediram de exalar.

Estamira, querida, recebeste, há pouco, minha correspondência, guarda, pois agora que és livre como um rouxinol.

Só te acho um pouco descuidada conosco... deixaste-nos sem teus vereditos que silenciam em ti... Ingrata!!!!!

Perdoe-me! É a dor, mulher, que vasa da minha alma!

E agora Estamira, “vale a pena ver de novo” não quero...

Está bem! Estou exigindo muito de ti que deu ao mundo a beleza da lucidez e generosidade!

Descansa, minha dulcissima Estamira, em Paz e no Bem!

Fátima G.

A morte de Estamira



Morreu nesta quinta-feira (28), no Rio de Janeiro, a protagonista do premiado documentário "Estamira" (2005), Estamira Gomes de Souza, que tinha 72 anos. O enterro acontece nesta sexta no Cemitério do Caju.

Estamira estava internada no Hospital Miguel Couto, na Gávea, desde a terça-feira (26). Ela sofria de diabetes e morreu em decorrência de uma infecção generalizada.

Lançado em 2005, "Estamira" foi dirigido por Marcos Prado, sócio de José Padilha na Zazen Produções e produtor de "Tropa de Elite 1 e 2". O documentário segue a personagem-título, uma mulher que possui problemas mentais e sobrevivia com o que encontrava no aterro sanitário de Jardim Gramacho, no Rio.

O documentário foi premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo – no total, 23estatuetas -, incluindo melhor documentário pelo júri oficial no Festival do Rio, na Mostra de Cinema de São Paulo e o Grande Prêmio do Festival Internacional de Documentário de Marseille.


Através de sua conta no Facebook, Prado afirma que Estamira morreu por falta de atendimento. "Estamira ficou invisível pela falência e deficiência de nossas instituições públicas", escreveu. "Morreu depois de ficar dois dias esperando por atendimento nos corredores da morte do nosso maravilhoso serviço público de saúde do Miguel Couto."


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Os anormais // Casa dos Mortos // Primeiros Passos


Indicado pelo grupo de Saúde Mental na Uerj, o documentário "A casa dos mortos" relata o Manicômio Judiciário de Salvador. A antropóloga Débora Diniz, diretora do filme, ressalta o polêmico tema dos manicômios judiciários como o grande desafio da Reforma Psiquiátrica Brasileira.

O FILME: Bubu é um poeta com doze internações em manicômios judiciários. Ele desafia o sentido dos hospitais-presídios, instituições híbridas que sentenciam a loucura à prisão perpétua. O poema A Casa dos Mortos foi escrito durante as filmagens do documentário e desvelou as mortes esquecidas dos manicômios judiciários. São três histórias em três atos de morte. Jaime, Antônio e Almerindo são homens anônimos, considerados perigosos para a vida social, cujo castigo será a tragédia do suicídio, o ciclo interminável de internações, ou a sobrevivência em prisão perpétua nas casas dos mortos. Bubu é o narrador de sua própria vida, mas também de seu destino de morte.

"A falta de tratamento adequado, de terapias, atividades de cunho social e trabalho de incentivo à reaproximação familiar levam, inevitavelmente, à instituição não oficial de algo proibido pela Constituição". "A prisão perpétua acaba ocorrendo nesse cenário", destaca Débora.

"Na avaliação de Débora, transferir a responsabilidade do tratamento à área da saúde é uma das tentativas interessantes para mudar a realidade dos manicômios judiciários". Segundo ela: "Seria a transmissão do mundo da medicalização para o mundo social".

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Primeiros passos...

Por: Vitoria Raquel Pereira de Souza


Poderia eu pensar em primeiros passos? Creio que não, os primeiros são para outrem, contudo se a intenção é comparar desenvolvimento/amadurecimento/entendimento de algo, com o desenvolvimento infantil, direi... Engatinhando, e é nessa perspectiva que buscarei e ousarei compor, alguns períodos sobre o caso publicado no Jornal Pequeno do dia 27 de abril de 2011, (onde a manchete destaca: “Médico orienta promotora do Distrito Federal a fingir loucura”) com base nos escritos do livro Anormais de Michel Foucault (2002).

É interessante analisar os acontecimentos da vida cotidiana, sob a ótica de Foucault (2002), no que tange o terror Ubuesco, fomentado pela cena ridícula da Promotora de Justiça[1] Deborah Guerner, que se utiliza do recurso Ubu para não ser responsabilizada pelo dito (maldito) “Mensalão do DEM”, com o auxílio do Ubu o Dr. Luis Altenfelder Silva Filho (psiquiatra paulista) que busca dirigir o espetáculo teatral, ensinando a mecânica grotesca de poder, fazendo-a falsificar loucura, na intenção de, induzir o exame médico-legal, para:

· Deslocar o nível de realidade da infração (porque nenhuma lei impede de ser desequilibrada);

· Possibilitar a transferência do ponto de aplicação do castigo, da infração definida pela lei a criminalidade;

· Dobrar o autor do crime com esse personagem;

· Reconstituir antecipadamente uma cena reduzida do próprio crime;

· Constituir desdobramento de médico que será médico-juiz;

· Repetir tautologicamente a infração para inscrevê-la como traço individual.

Então lembrei...

“LEAR: Tu me chamas de bobo, rapaz?

BOBO: Abandonaste todos os teus outros títulos,

mas esse nasceste com ele.” - Shakespare: Rei Lear. Ato I, 4. (NUNES, 1989)

Porei-me na função de “boba” ao refletir sobre a cena abaixo:

...captadas pelo circuito interno da casa da promotora e apreendidas com autorização da Justiça, mostram detalhes da armação para que ela fosse considerada doente por peritos judiciais. Deborah foi afastada em dezembro de suas funções no MP do DF. Além das ações na Justiça, ela responde a um processo disciplinar no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que pode aprovar sua demissão do serviço público. Ela ainda recebe salário...” (COLON e RECONDO,2011)

A promotora de justiça deveria ser a principal representante legal da acusação, ou seja, é a parte responsável por lei para apresentar um caso contra um indivíduo suspeito de contrariar a lei em um julgamento criminal. E hoje é quem encena, é ensinada e possivelmente já ensinou alguém a se comportar como louco, uma vez que como Ubuesca tem conhecimento que a partir do exame psquiatrico há uma transferêcia do ponto de aplicação da infração determinada pela lei à criminalidade, em decorrência da dobra do delito. (FOUCAULT, 2002)

De posse do poder o que interessa agora para ambos Ubus (promotora de justiça e psiquiatra) é a mecânica do jogo de interesses, (re)afirmando o então ubuesco em troca de papeis , para ter controle do teatro empreitado contra a sociedade brasileira. Lembrando que, a tal atriz (Deborah Guerner) já havia antes manifesto sua “loucura por dinheiro”, e assim, fora afastada de suas funções por suas tentativas de pirataria. Será ela aqui a representação de Maria Antonieta - monstro humano, criminosa política ?

Mas que TRIBUNAL é esse que juridicamente afasta e permanece pagando (salário) pela criminalidade da referida atriz ? É o desenho do poder, a soberania arbitrária, odiosa, perversa.Assim, este tribunal apresenta a engrenagem grotesca em suas entranhas.

Tribunal Ubu bufão

Tribunal Ubu burlão

Tribunal Ubu burlesco

Ubu neles

Ubu com eles

Ubu para eles

Ubu em si

Ubu longe de mim

Ubu longe de ti.

Foto da promotora desmaiando em sua encarnação Ubu.

Fonte: Disponível em http://goo.gl/kwVQ9 Acesso em 05/05/2011.

Diante do mencionado, percebe-se que “o duro ofício de punir vê-se assim alterado para o belo ofício de curar” (Foucault, 2002, p.29)

REFERÊNCIAS

FOUCAULT, M. Os anormais. São Paulo. Martins Fontes, 2002.

NUNES, Eustachio Portella. Freud e Shakespare. Rio de Janeiro, 1989.

COLON, Leandro e RECONDO, Felipe. Médico Orienta promotora a fingir loucura. Jornal Pequeno. Disponível em: Acesso em 05/05/2011.


[1] Atuam em favor da sociedade e da cidadania, defendendo a ordem jurídica, o regime democrático, os interesses difusos e coletivos e os interesses individuais, promovendo, privativamente, a ação penal pública e as ações civis públicas. Exercem suas funções no âmbito federal e estadual, perante as justiças civil, criminal, militar, do trabalho e eleitoral. Para tanto, reprimem a criminalidade, propõem ações civis públicas em defesa de direitos individuais indisponíveis, difusos e coletivos; exercem a titularidade de ações constitucionais e de ações civis; fiscalizam o cumprimento da legislação e desempenham atribuições judiciais e atribuições extrajudiciais (grifo nosso). O texto refere-se à classificação brasileira de ocupação, segundo o Ministério do Trabalho. Disponível em Acessado: em 04/05/2011.



Post solicitado por: Vitoria Raquel Pereira de Souza

UM BREVIÁRIO HISTÓRICO DA TRANSVERSALIDADE ENTRE POLÍTICAS PÚBLICAS E EDUCAÇÃO ESPECIAL, A PARTIR DA NOÇÃO DE ESTADO GOVERNAMENTALIZADO

Gente, segue o trabalho que irei apresentar na V JOINPP.

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UM BREVIÁRIO HISTÓRICO DA TRANSVERSALIDADE ENTRE POLÍTICAS PÚBLICAS E EDUCAÇÃO ESPECIAL, A PARTIR DA NOÇÃO DE ESTADO GOVERNAMENTALIZADO

Ramon Luis de Santana Alcântara

RESUMO

Este trabalho propõe traçar um breviário histórico acerca da transversalidade entre Políticas Públicas e Educação Especial no Brasil. Tomam-se as noções de Estado e Governamentalidade, desenroladas por Michel Foucault, para compreender como os dispositivos oficiais funcionaram como tecnologia de poder. Constitui-se como um ensaio teórico, realizado a partir da análise de conteúdo de políticas educacionais entre os anos de 1988 e 2009. Têm-se como resultados as diversas tramas saber-verdade-poder-subjetivação que o Estado governamentalizado elabora acerca de Educação Especial e sujeito com deficiência.

Palavras-chave: Estado; Políticas Públicas; Educação Especial


Download do artigo completo AQUI

terça-feira, 12 de julho de 2011

CORPOS ALÉM DO BINÁRIO? A POLÍTICA NACIONAL DE SAÚDE INTEGRAL DE LGBT E A INTELIGIBILIDADE

CORPOS ALÉM DO BINÁRIO? A POLÍTICA NACIONAL DE SAÚDE INTEGRAL DE LGBT E A INTELIGIBILIDADE*

Luciene Galvão Viana e

Ramon Luis de Santana Alcântara

RESUMO

Este trabalho tem como objetivo realizar um exercício de análise da Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – LGBT. Têm-se como quadro analítico as considerações de Michel Foucault e Judith Butler por meio de noções tais como governamentalidade, identidade, subjetivação, gênero. Como metodologia, primou-se pela a análise documental, focando a análise de conteúdo. Acerca dos resultados tem-se que a Política, no instante que atende as demandas do movimento social LGBT e formula um dispositivo acerca deste público, produz socialmente identidades, conferindo uma inteligibilidade aos gêneros, normatizando-os e controlando-os.

Palavras-chave: Política Pública; Gênero; Identidade.

ABSTRACT

This paper aims to conduct an exercise of analisys of the National Comprehensive Health of Lesbian, Gay, Bisexual and Transgender - LGBT. There are Michel Foucault´s and Judith Butler´s considerations as analytical framework, by notions such as governmentality, identity, subjectivity, gender. The excelled methodology was the documental analysis, focusing on content. About the results we have that policy, at the moment that meets the demands of the Social Movement and LGBT and proposes devices for this public, produces social identities, giving a intelligibility to the genera, normalizing and controlling them.

Keywords: Public Policy, Gender; Identity.


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*Artigo aprovado na V Jornada Internacional de Políticas Públicas

quarta-feira, 6 de julho de 2011

VII Colóquio Internacional Michel Foucault - PUC/SP


VII Colóquio Internacional Michel Foucault – PUC/SP.

24 a 27 de outubro de 2011.

O Mesmo e o Outro. 50 anos de História da Loucura (1961-2011).


Mas, para mim, 1961 continua e continuará sendo o ano em que se descobriu um verdadeiro grande filósofo. Eu já conhecia pelo menos dois que haviam sido meus colegas de estudos, Raymond Aron e Jean-Paul Sartre. Também não eram indulgentes com relação a Foucault. Um dia, contudo, os três foram vistos juntos. Era para apoiar, contra a morte, uma aventura sem fronteiras. (Georges Canguilhem)

michel-foucault

Tendo por mote central a comemoração do cinquentenário de História da loucura na idade clássica, o Departamento de Filosofia e o Programa de Estudos Pós-graduados em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo propõem a realização do VII Colóquio Internacional Michel Foucault. O evento pretende dar continuidade a uma sequência regular de Colóquios, realizados em várias instituições (USP, UERJ, UNICAMP, UFRGN, UFRJ) e fazer da “celebração” desta obra já cinquentenária um instrumento de interrogação e de abertura às questões do presente.

A programação do evento está estruturada em conferências e comunicações. As conferências serão proferidas por professores convidados estrangeiros (Ècole Normale Superieure de Paris, Université de Bordeaux, Universidad Complutense de Madrid e Universidade de Lisboa). As comunicações serão organizadas em mesas redondas com professores brasileiros de várias universidades do país, vinculados a diferentes áreas do conhecimento (Filosofia, História, Educação, Ciências Sociais, Psicologia, Direito), configurando assim a natureza interdisciplinar do evento.