Foucault

“Quem somos nós? O que nos tornamos?” é o questionamento-mor que se abstrai da trajetória filosófica de Michel Foucault. Dreyfus & Rabinow (1995) apresentam, lucidamente, uma interpretação do projeto filosófico foucaultiano a partir dele mesmo, onde o próprio Foucault (1995b, p. 231) anuncia que seu objetivo, no decorrer de sua trajetória, foi “criar uma história dos diferentes modos pelos quais, em nossa cultura, os seres humanos tornaram-se sujeitos”. Não busca a história de quem poderíamos ter sido, nem a verdadeira história, nem a história das soluções, mas a história do que nos tornamos, a história das problematizações.

Este espaço se faz mais necessário, levando-se em consideração as múltiplas interpretações, muitas vezes bastante distorcidas, que ocorreram no Brasil acerca dos estudos foucaultianos. Pauto-me nas contribuições de comentadores já consolidados, internacional e nacionalmente, no que toca à obra foucaultiana, para desenhar a caixa que suportará minhas ferramentas, tomando o pensador, à vezes, para além dele mesmo.

Dreyfus & Rabinow (1995) tomam como mote de sua análise sobre a trajetória filosófica foucaultiana um questionamento muito em voga nas décadas de 60 e 70 do século XX: Michel Foucault faria parte do movimento estruturalista? Tal pergunta eclodiu no meio intelectual francês principalmente após a publicação de As palavras e as coisas, em 1966. Todos se indagavam se o conteúdo daquele livro surgia como uma grande novidade para fundamentar as premissas estruturalistas que permeavam os debates intelectuais na França. Principalmente, o lado marxista-maoísta dos ciclos acadêmicos atacou o livro de Michel Foucault como instrumento em prol do estruturalismo e da classe burguesa (ERIBON, 1990). É para tentar responder ao fervor dessas repercussões que perduravam, ainda no final dos anos 70, que Dreyfus & Rabinow (1995) elaboram sua análise sobre um pensador que iria para além não só do estruturalismo, como também da hermenêutica.

Os autores iniciam sua tese central, pontuando que a obra foucaultiana não somente ultrapassava a fenomenologia, o estruturalismo e a hermenêutica, como apontava sendo o mais importante esforço contemporâneo para compreender os indivíduos e para contar a história do presente.

Para Dreyfus & Rabinow (1995), o projeto foucaultiano supera a análise estruturalista que fazia desaparecer a noção de sentido e postula um modelo formal e universal de comportamento humano. Da mesma forma, transpassa o sujeito transcendental que dá sentido a fenomenologia e por fim, nega a idéia do sentido implícito que a hermenêutica apregoa aos sujeitos com vaga consciência disto. Pretende Michel Foucault, segundo os autores americanos, realizar uma análise interpretativa da história da humanidade, notadamente do presente.

Comumente este projeto filosófico é organizado pelos comentadores foucaultianos em três momentos, etapas, fases ou domínios : arqueologia, genealogia e ética. Tal organização, didaticamente arbitrária, atualmente já se apresentou como falha por desconsiderar inúmeros nexos entre esses três momentos e entre os livros escritos por Michel Foucault em cada um deles (FONSECA, 2009). Percebe-se que a estruturação cronológica ou metodológica não responde à complexidade do projeto foucaultiano. Embora haja controvérsia, prefiro adotar a organização apresentada pelo próprio filósofo. Segundo Foucault (1995a, p. 262) seus três domínios são:

primeiro, uma ontologia histórica de nós mesmos em relação à verdade através da qual nos constituímos como sujeitos de saber; segundo, uma ontologia histórica de nós mesmos em relação a um campo de poder através do qual nos constituímos como sujeitos de ação sobre os outros; terceiro, uma ontologia histórica em relação à ética através da qual nos constituímos como agentes morais.

O que dificulta essa visão panorâmica é que ela foi construída, paulatinamente, no fazer de pesquisador por Michel Foucault. Não é e nem poderia ser um projeto elaborado e exposto em um plano estratégico previamente. Mas foi em suas investigações que, tardiamente, ele pôde chegar a essa organização. De fato, como aponta Fonseca (2009), há genealogia na História da Loucura, por exemplo. Todavia não podemos caracterizá-lo como um livro de preocupações genealógicas, mas fundamentalmente um esboço de uma arqueologia.

Dreyfus & Rabinow (1995), de certa forma, adotam essa organização dada por Michel Foucault. Entretanto, na historicidade de seus escritos, buscam identificar o percurso tomado pelo filósofo até a adoção dessa postura. Percebem que seus escritos, incorporados ao domínio arqueológico, possuem uma forte característica própria, tais como História da Loucura, Nascimento da clínica, As palavras e as coisas e A Arqueologia do Saber. Delas, abstraem a concepção do projeto arqueológico de Michel Foucault.

Nesse sentido, arqueologia seria o “método” que se voltaria para as práticas discursivas (embora considere a conexão com as práticas não-discursivas), buscando evidenciar sua regularidade em série de descontinuidade na história, permitindo com que algo apareça como verdade. Há aqui a primazia do discurso, tomando-o vinculado estritamente à épistémè.

No entanto, é a partir da aula inaugural no Collège de France, intitulada A ordem do discurso que Foucault (1996) vai esboçar uma relação entre arqueologia e genealogia, como fazendo parte de um mesmo projeto filosófico. Segundo Dreyfus & Rabinow (1995), essa aproximação entre uma arqueologia e uma genealogia que se completavam e se alternavam e se suportavam ainda soava estranha. Uma costura mal-feita.

Somente com a elaboração mais concisa da genealogia, em Vigiar e Punir e na História da Sexualidade – A vontade de saber, a relação com arqueologia ganha ares sólidos. Agora, afirmam Dreyfus & Rabinow (1995), a genealogia precede a arqueologia. É nesse momento que o esboço de um projeto geral elaborado por Foucault fornece à genealogia uma determinada primazia.

Em linhas gerais, a genealogia se preocupa com o aspecto político do discurso, com a estratégia e a tática do discurso manifestando e produzindo poder, vinculado sempre a um saber que emerge (FOUCAULT, 2003). Há a indagação do “por quê” esses saberes emergem, vinculados sempre a uma estratégia de poder. Tem-se aqui a preocupação com as condições de possibilidade do discurso e seu entrelaçamento com a trama saber-verdade-poder.

A genealogia busca contradizer os métodos históricos tradicionais que afirmam uma essência ou uma lei geral subjacentes aos acontecimentos. Foge das profundidades misteriosas e analisa as práticas do cotidiano, em sua superfície. As essências que geralmente são dadas às coisas, na genealogia, são desmistificadas, pois seu objetivo é justamente demonstrar como essas essências foram construídas historicamente.

Outra característica do genealogista é que para ele não há um sujeito ou social movendo a história. As emergências são produzidas por um interstício. Este é resultado de práticas sociais históricas e se configura como um campo no qual as relações de poder operam. Dito de outro modo, na genealogia foucaultiana os sujeitos emergem em um campo de batalha estabelecido historicamente e somente aí, eles atuam através de sua função, condição de possibilidade dos discursos (FOUCAULT, 1979). Aqui se pode perceber claramente o que Foucault (1995a, p. 262) nomeou como “nos constituímos sujeitos pela ação sobre os outros”. A genealogia busca analisar como se dá essa relação (ação sobre ação) de poder.

A ética é o domínio em que Michel Foucault vai analisar como se dá o governo de si, seria a análise do poder voltado para si, é “o lado de dentro do lado de fora” (DELEUZE, 2005, p. 104). Através dos outros dois volumes da História da Sexualidade – O uso dos prazeres e O cuidado de si, Michel Foucault pôde discorrer sobre o que ele chamou de formas de sujeição pelas quais os indivíduos se tornam sujeitos morais, notadamente através do tema da sexualidade.

Têm-se agora os três domínios da genealogia foucaultiana: o ser-saber, o ser-poder e o ser-si. Formam-se as três ontologias históricas (pois não designam condições universais) do pensamento foucaultiano. Deleuze (2005) destaca que essas condições não são apodíticas, irrefutáveis, mas criam problematizações e são a essas que se volta o projeto e a trajetória filosófica de Michel Foucault. Volta-se para as variações com a história, isto é, como o problema se apresenta agora. Destaca que nenhuma solução pode ser transposta de uma época para outra, mas podem haver usurpações nos campos problemáticos.

De fato, a trajetória de Michel Foucault, levando em consideração os modos perdidos com os quais seus comentadores o buscam, é difícil de situar, como se ela estivesse sempre em movimento. Blanchot (2009, p. 53) talvez seja o mais fidedigno “buscador” da obra foucaultiana, ao (tentar) definí-lo através de sua arte de questionar, problematizar, afirma:


a posição, no meu entender, difícil, e também privilegiada, de Foucault, poderia definir-se assim: poderemos saber onde ele se situa, uma vez que não se reconhece (estaria num perpétuo slalom entre a filosofia tradicional e o abandono de todo o espírito de seriedade) nem sociólogo, nem historiador, nem estruturalista, nem pensador ou metafísico?


No Brasil, Machado (1979) é um dos primeiros pesquisadores a se dedicar à obra foucaultiana. O autor destaca que a despeito das classificações dos momentos de Michel Foucault, podem-se vislumbrar claramente as contribuições e os movimentos em cada escrito. Por exemplo, do domínio chamado de arqueologia têm-se a conceituação de saber, o estabelecimento das descontinuidades históricas, a articulação dos saberes com a estrutura social, crítica da idéia de progresso na história das ciências, entre outras que transcenderam o trabalho de Michel Foucault e revolucionaram o pensamento contemporâneo. Da mesma forma, o autor trouxe a configuração da genealogia, apontando para o aspecto microfísico do poder, a postura da análise ascendente do poder, a relação entre saber e poder, bem como os primeiros estudos que apontavam para a conceituação da governamentalidade.

Veiga-Neto (2007), aproximando o projeto filosófico de Michel Foucault à Educação, aponta que o que se tem nas teorizações foucaultianas é a crítica da crítica. Segundo o autor, o filósofo faz uma crítica cética e incômoda, que se pergunta incessantemente sobre si mesma, suas condições de possibilidade de existência. Esses questionamentos infinitos, pois não há resposta última, fazem com que para o filósofo francês, filosofar seja sinônimo de problematizar. Motta (2003) destaca que a obra de Michel Foucault é revolucionária e foi construída sob o signo do novo, transformando a relação de saber e verdade de toda a ciência e filosofia. Ainda situando o pensamento foucaultiano no Brasil, destaco que desde o início das traduções dos cursos ministrados no Collège de France, os estudiosos de Michel Focault começaram a destacar uma nova onda em sua obra. Fonseca (2009) localiza Michel Foucault em uma segunda geração de filósofos franceses que influenciaram os pensadores brasileiros. Segundo ele, essa geração ficou marcada pela ousadia. A ousadia do filosofar para além do texto, em detrimento da exacerbação do rigor e reflexão na leitura da filosofia da geração anterior.

No entanto, somente os livros publicados e algumas entrevistas haviam chegado até pouco tempo às mãos dos estudiosos foucaultianos no Brasil, excetuando-se raríssimos pesquisadores que puderam ter acesso aos cursos em áudio em francês. Nesse sentido, localizam-se as análises “tradicionais” da sua trajetória filosófica, enfatizando os três domínios (arqueologia, genealogia e ética) e trabalhando com conceitos centrais como discurso, poder, saber, verdade e outros.

A tal nova onda, destaca Freitas (2009), de saída altera a forma como os pesquisadores brasileiros organizam o pensamento foucaultiano. Freitas (2009) pontua que se fez um árduo exercício para padronizar os complexos e fugidios estudos foucaultianos e que toda essa empreitada foi questionada ao se ter acesso às entrevistas de Michel Foucault e aos cursos no Collège de France. Isto porque Michel Foucault, desde sua entrada no Collège de France, ou mesmo antes, já na Universidade de Clermont-Ferrand, como destaca Eribon (1990), desenvolveu um caráter pedagógico bastante característico. O ensino para ele mantinha fortes relações com a pesquisa e com o desenvolvimento de seu pensamento. Assim, o acesso somente aos livros publicados garantia apenas a compreensão parcial de sua trajetória filosófica.

Desta forma por muito tempo no Brasil, afirma Freitas (2009), foram estipuladas algumas fórmulas que tentavam cristalizar o pensamento foucaultiano. A primeira a se condensar afirmava que o exercício do poder criava saber e o saber funcionava nas relações de poder. Posteriormente, uma segunda fórmula tentava abarcar o pensamento de Michel Foucault afirmando que o poder operava por meio do discurso. Por fim, uma terceira fórmula desenhava a trama saber-verdade-poder.

Destaca Freitas (2009) que estas fórmulas, a despeito de uma tentativa inválida de cristalizar um pensamento que se propõe justamente como incristalizável, não estavam erradas. O esforço que se faz atualmente é tentar incorporar e amalgamar essas compreensões com outras que vinham sendo desenvolvidas nos cursos, como por exemplo, a tríade metodológica da problematização-polêmica-experiência, desenvolvida principalmente nos últimos anos de vida de Michel Foucault. Outra contribuição apontada por Freitas (2009) é a inclusão do sujeito na trama saber-verdade-poder. Pois a partir do momento em que Foucault (1995b) destaca que seu interesse é analisar os modos de subjetivação decorrentes das relações de poder, a noção de sujeito ganha novo lugar em seu pensamento. Freitas (2009) reordena a genealogia do poder foucaultiana a partir das contribuições dos cursos no Collège de France. Para ele, o biopoder é a genealogia do poder e esta se bifurca em duas análises: a disciplina, com suas estratégias individualizantes da sociedade da vigilância e a biopolítica, com as estratégias massificantes da sociedade de controle. Aqui novas discussões se estabelecem nos estudos foucaultianos, tais como: governamentalidade, neoliberalismo, Estado, liberdade, entre outras.


Referências



BLANCHOT, Maurice. Foucault como imagino. Disponível em: rapidlibrary.com. Acessado em: 25/06/2009.
DELEUZE, Gilles. Foucault. São Paulo: Brasiliense, 2005.
DREYFUS, Hubert; RABINOW, Paul. Michel Foucault, uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
ERIBON, Didier. Michel Foucault (1926-1984). Lisboa: Livros do Brasil, 1990.
FONSECA, Márcio Alves da. Michel Foucault: a filosofia como história política da verdade. In: COLÓQUIO INTERNACIONAL DE FILOSOFIA FRANCESA E CULTURA, 1, São Luís, 2009. 
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
FOUCAULT, Michel.Michel Foucault entrevistado por Hubert L. Dreyfus e Paul Rabinow. In: DREYFUS, Hubert; RABINOW, Paul. Michel Foucault, uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995a.
FOUCAULT, Michel. O sujeito e o poderIn: DREYFUS, Hubert; RABINOW, Paul. Michel Foucault, uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995b.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996.
FOUCAULT, Michel. Ditos & Escritos IV: estratégia, poder-saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.
FREITAS, Alexandre Simão de. A agenda na pesquisa foucaultiana. In: CICLO ITINERANTE DE ESTUDOS FOUCAULTIANOS, 1, São Luís, 2009.
MACHADO, Roberto. Por uma genealogia do poder: In: FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder.  Rio de Janeiro: Graal, 1979.
MOTTA, Manoel Barros da. Apresentação. In: FOUCAULT, Michel. Ditos & Escritos IV: estratégia, poder-saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.
VEIGA-NETO, Alfredo. Foucault e a educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.






Fonte: ALCÂNTARA, Ramon Luis de Santana. A ordem do discurso na educação especial. Dissertação de Mestrado em Educação. Universidade Federal do Maranhão. São Luís, 2011.